“Poemas com cafeína”, a entrevista ao autor da chancela editorial da CulturePrint, Bairro dos Livros, pode ser lida na íntegra aqui.
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entrevista a a.p.ribeiro, a propósito de “café paraíso” no jornal “a voz da póvoa”
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caso de correnteza poética
Caso de correnteza poética: “Café Paraíso”, de António Pedro Ribeiro, e “Nunca o Mar”, de Minês Castanheira, as duas obras da CulturePrint da chancela Bairro dos Livros, estreiam a 2ª Edição na Póvoa e acabam de chegar fresquinhos à livraria das Correntes d’Escritas.
comunicação de rui manuel amaral durante a apresentação de “café paraíso”, de a.p.ribeiro na fnac do norteshopping
Não sou eu que vou apresentar “Café Paraíso”, o novo livro de António Pedro Ribeiro. Quem vai apresentar o novo livro de António Pedro Ribeiro é ele próprio, lendo alguns dos seus poemas. Ler os poemas: eis a única maneira de apresentar um livro de poesia. A maneira mais justa. Sem explicações, sem ruídos, sem mediações. Em todo o caso, e recorrendo a uma expressão cara a qualquer apresentador profissional de livros, gostaria de partilhar com o venerável público duas ou três ideias muito simples. Ou melhor, duas ou três hipóteses.
“Café Paraíso” é um livro importante. E uso o adjectivo “importante” medindo cuidadosamente cada grama do seu peso. É importante porque este é o melhor livro de APR. É importante porque reúne os melhores poemas que ele escreveu em torno dos cafés. Ou seja, e dito de forma mais simples, reúne os seus melhores poemas. Porque, em rigor, não existe outro tema na obra de APR (também recorro aqui à palavra “obra” de forma intencional): “Sou o poeta dos cafés e dos bares” (p. 90). É certo que existem outros gatilhos para os poemas – as mulheres, o álcool, a política, os amigos, a própria poesia -, mas o contexto da escrita é quase invariavelmente o do café. E mesmo proclamando não ser um “poeta de emendas” (p. 89), este é o seu livro mais depurado.
Mas “Café Paraíso” é também importante porque constitui um objecto estranho no panorama literário português. Sejamos claros: há outros poetas da mesma geração de APR a usar os cafés, os bares, até as tabernas, como leitmotiv para os poemas. Todavia, o estilo de Ribeiro é diferente. Literalmente diferente. A maneira como escreve afasta-o da generalidade da prática poética do nosso tempo. A sua escrita é de uma liberdade desconcertante. De uma simplicidade que desarma o leitor. Não há aqui segundas leituras, segundas intenções, segredos ocultos sob as palavras. Uma mesa de café é uma mesa de café, uma cerveja é uma cerveja, um amigo na noite é exactamente isso: um amigo na noite. Eis, pois, “o último dos poetas românticos”, como ele próprio se intitula, com a melancolia de um lobo solitário.
Na verdade, um leitor experimentado de poesia não sabe o que fazer com estes poemas, não sabe como arrumá-los entre os meridianos e paralelos habituais, no interior dos quadrados perfeitos. Porque nenhum outro poeta dos nossos dias tem a coragem de escrever como APR, ignorando modas, tendências, escolas, tribos e autoridades na matéria. No fundo, sem medo de correr riscos. O campo da poesia, o campo da literatura, é o supremo espaço da liberdade e nem todos arriscam percorrer sozinhos esse imenso território selvagem. É sempre mais fácil seguir o grupo, a tradição, a lição.
Os profetas da morte cercam-me/ por todo o lado/ falam-me de dinheiro, trabalho,/ castrações, conversões/ (…) mas a canção deles amoleceu-me/ depois, em certas noites,/ Dionisos veio ter comigo/ levou-me pela mão/ pôs-me no palco/ fez-me dançar/ ria-me sarcasticamente nas barbas deles/ então toquei a Vida/ amei-a, forniquei-a/ desejei que ela durasse eternamente/ tentei arrastar alguns para o meu barco/ não consegui/ tiveram medo/ segui sozinho/ criei, segui o instinto e a luz (Nietzsche, p. 60).
Ora, se a poesia é uma experiência radical de liberdade, esta é a poesia mais verdadeira. Se a poesia é uma tentativa de resistência, de rebeldia, de insubordinação, esta é a verdadeira poesia. Se o trabalho mais autêntico do poeta é superar a norma, dispor a tradição de pernas para o ar, não há poeta mais autêntico do que António Pedro Ribeiro. Este é “o homem da liberdade” (p. 26), que “não foi feito para a eficácia/ para a norma social” (p. 56), que sistematicamente “sai dos trilhos” (p. 65).
Há dias em que estou/ para além disso/ nem sequer me apetece/ ser realista/ já há realistas que cheguem/ porra!/ Não tenho que ser como os outros/ não tenho que ser como a maioria dos outros/ não tenho que escrever o que os outros escrevem/ não tenho que dizer o que os outros dizem/ nem tenho de andar atrás deles (O único poeta, p. 76).
Este ponto leva-me a outro, que tem que ver com esta apresentação em particular. Estamos a lançar um livro cujo pano de fundo é quase sempre o dos velhos cafés do Porto – do Piolho, do Ceuta, do Aviz -, e estamos a fazê-lo no mais cinzento, insípido e asséptico dos cafés: o café da Fnac do Norteshopping. Uma espécie de “Café Paraíso”, mas de celofane.
Justamente por isso este é o lançamento mais certeiro de todos os que o livro conheceu até agora (as sessões anteriores ocorreram em alguns dos cafés evocados nos poemas). Esta é a apresentação que encaixa no espírito mais genuíno de “Café Paraíso”: um espírito desalinhado, desarrumado, contestatário em relação aos diversos sistemas, incluindo o “sistema literário”, de que a Fnac é uma das principais referências, se não mesmo a principal.
Lançar este livro no café de uma Fnac é como instalar a confusão no campo do inimigo. Um acto subversivo, um ovo perigoso, uma formidável semente de revolução no coração do sistema. E se é verdade que, neste caso, a poesia imita a vida e a vida imita a poesia, então talvez estejamos todos, neste exacto momento, dentro de um dos poemas de António Pedro Ribeiro. Um poema sobre um grupo de tipos que, numa fria noite de Janeiro, assiste ao lançamento de um livro rebelde chamado “Café Paraíso”, no espaço climatizado de um centro comercial.
Rui Manuel Amaral
20/01/2012
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apresentação de “café paraíso” na fnac do nortshopping é notícia no jornal destak de hoje
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apresentação de “café paraíso” na fnac do norteshopping, dia 20 de janeiro

A apresentação está a cargo de Rui Manuel Amaral.
A sessão conta com alguns dos fundadores da Revista Aguasfurtadas, do Jornal Universitário do Porto, do qual o autor também fez parte, como Rui Lage, Michael Gonçalves e Francisco Lemos.
palavras de alexandre teixeira mendes na apresentação de “café paraíso” no olimpo sobre a poética de antónio pedro ribeiro
Activismo, Pulsão e Ebriedade
António Pedro Ribeiro (Porto, Maio de 1968) restaurou o antigo hábito dos “rapsodos” e dos “menesteres”, levando a poesia de lugar em lugar. Em suas andanças revelou-se o poeta da catarse que tem o mérito de trazer à superfície o traço do gozo perdido que só pode ser reencontrado no excesso, no gozo suplementar que se faz suporte da fantasia, receptáculo da causa do desejo. A sua escrita – performance – surge-nos imbuída de um pendor activista. Também aqui uma poesia – enquanto veículo terapêutico-existencial – (mega)político – que oscila entre o catártico e o des-construtor. Poderíamos mesmo falar de uma poética metropolitana: da “urbs”. Trata-se, pois, de uma obra “engajada” – das intro(pro)jecções – ancorada na existência livre de limites ou a paixão de uma liberdade impossível – que denuncia o “vazio” do mundo.
Dicção coloquial quotidiana
A dicção coloquial quotidiana é bastante óbvia no caso de António Pedro Ribeiro. Nos antípodas do bucolismo e da tradição lírica-discursiva – da escrita “sublime” ou transcendental – assiste-se em “Café Paraíso” (Editorial Bairro dos Livros, Culture Print, Porto, 2011) – o seu último livro – de forma directa, imediata – ao próprio eclodir de um corpo-próprio seminal (onde se exorciza a configuração amorosa e suas projecções fantasmáticas). Uma vez mais esta poemática tende ao transbordamento pulsional – na confirmação (ou refutação) emocional das possibilidades excessivas. Mas em que a denúncia da dominação do império conjunto – formado pelo poder técnico e a razão económica pura – é um ponto de partida metodológico.
Infinito da negação
Donde acaba o crítico e começa o panfletário, o extraviado ou simplesmente o instintual? O planfletarismo é em António Pedro Ribeiro inspiração: acesso ao optimismo revolucionário (frente à democracia “estabelecida”, “instalada” ou “mercantilista”). Pode dizer-se, contudo, que a sua poesia remete-nos ao “infinito da negação”. Assente num discurso do desejo (de Eros) que caracteriza a poesia de Allen Ginsberg ou de William Blake – torna-se demanda de “novatio” – um re-assumir do desencanto do mundo. Na primazia da revolta e da desobediência civil – do “différend” – evoca a “teoria crítica” (Reich-Marcuse) e, sobretudo, a “gaia ciência” de Nietzsche. Na sua poesia – desde o início – o protagonista são as três estruturas do “impossível”: política, amor e arte. “Riso soberano”: eis aqui a novidade de categoria muito significativa. É importante ressaltar ainda o privilégio da escrita automática – que nos autoriza a falar da pulsão pura – e enquanto veículo de uma “auto-biografia” ou trama “psico-biográfico”:
escrevemos sobre nós próprios
estamos sempre
a escrever sobre nós próprios
nada há a fazer
desenvolvemos este estilo
é claro que também
nos referimos aos outros
à televisão omnipresente
às riquezas
ao cacau
mas estamos sempre
a falar de nós próprios
num monólogo sem fim
é isto a vida
é isto a escrita
e é isto que sobra
de um dia de tédio (p. 77-78)Id dionisíaco
Nesta obra perpassa – como dissemos antes – a vida escrita – os impasses do escrever. O que entendo aqui por exortação à libertação do “id” dioníaco. Não é difícil notar o seu apego à insânia – pathos da loucura – ou o privilégio do êxtasse e da ebriedade. Porque “Cerveja-matéria prima do poema” (p.34). Seria possível falar da afinidade entre o tipo de poética de António Pedro Ribeiro com a geração “beat”: a psicadelia e a contracultura. De facto, desde o início das suas “démarches”, António Pedro Ribeiro procurou ampliar e fortalecer o activismo político enfatizando a dimensão da ebriedade – contra a razão e a administração da vida – unindo-se a Rimbaud e Nietzsche. Mas é Raoul Vaneigem de “Arte de Viver para a Geração Nova” e o mercado pariense de ideias que oferece ao poeta um modelo: o da lição situacionista (de uma existência liberta do gregarismo e da massificação). Para António Pedro Ribeiro a ebriedade tem também a sua forma e a sua figura:
Bebo cervejas no inferno
Mas quero o paraíso
de volta (p.30)Excesso e transgressão
Em “Café Paraíso” re-equaciona-se a experiência do sensível – a partir justamente dum apego visionário – que revela e permite ser – ou, se quisermos, dum corpo linguagem. Deste modo um corpo dionísiaco enquanto corpo pulsional – nos seus sintomas e somatizações – transferência e traço significante, excesso e transgressão. Nesta sua escrita concentra-se e exacerba-se, de maneira exemplar, uma poética catártica, em que, por sinal, a corporeidade, o estofo do ser, como diria Merleau Ponty, está prenhe de significado. Aqui o eterno existe no efémero, mas o contingente anseia e clama pelo absoluto:
procuro a eternidade
do instante
não me adaptei à vida burguesa
às conversas do senso comum
à vulgaridade do intelecto (p84)Iconoclastia e irreverência
Trata-se de uma poesia que enaltece a auto-reflexão. Em que há também um estranho exercício crítico em torno da sociedade autoritária “unidimensional”. Por fim, o questionamento dum mundo dominado por critérios de eficiência e sucesso e, por conseguinte, assente na “auto-escravização” do humano. O conjunto dos poemas de António Pedro Ribeiro exibem, em seu contexto de significação original, um forte pendor ideológico – enquanto propensão crítica do capitalismo avançado e, por conseguinte, da desmontagem das falsas boas intenções burguesas. Ademais depreciativa e fustigadora do poder e dos seus símbolos – comissários e e aparelhos repressores ideológicos – vícios públicos, virtudes privadas. Insistimos: trata-se de uma escrita psico-emocional – como fragmentos de uma auto-biografia. Poderíamos dizer que neste poemário – nos passos do “politically incorrect” – perpassa a questão da hybris, desmedida do ser, da verdade da poesia como embriaguez e transgressão. Outo exemplo notável de uma poética da iconoclastia e da irreverência ou “pour cause” da “reverie” política ( tipo marxista pós-moderno – emancipalista).
Café-Bar Olimpo Porto, 21 de Dezembro de 2011
Alexandre Teixeira Mendes
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“café paraíso” vai ao olimpo provar do néctar dos deuses
Sim, é verdade: o “Café Paraíso” vai ao Olimpo provar o néctar dos deuses e beber o café dos poetas! Estão todos convidados a partilhar este momento connosco, em mais uma apresentação da antologia dos poemas de café de António Pedro Ribeiro, desta feita a cargo de Alexandre Teixeira Mendes.
A apresentação conta ainda com as presenças de Luís Carvalho e Aurelino Costa.
A noite promete leituras dos poemas do “último poeta de café” pela voz de Susana Guimarães.
palavras de ângela berlinde durante a apresentação de “café paraíso”, n’”a brasileira”, em braga
Ao Ribeiro
Nunca serei fotógrafa o suficiente
para revelar a loucura e devaneio do poeta maldito
ou fazer o mais claro enquadramento das longas tardes
onde o poeta tudo roubou ao futuro do mundo.
Nunca serei gente suficiente
para o retratar.
Mas sei que há fotografias
que se não escrevem,
sendo só o tempo o seu dono
e a infinita passagem
a única e a mais justa forma
de os expressar.
Ribeiro fica nos cafés e na luz espelhada da Brasileira
na cor tão difícil que a liberdade mistura com os dias do mundo.
Há no seu coração um planeta a atravessar-lhe o coração,
como se o Poeta e o mundo pudessem ser uma narrativa
para partir de vez,
para o mais justo coração da humanidade.
Os livros de Pedro Ribeiro são o seu retrato mais grandioso,
como é o retrato de uma geração, de alguém nascido no mítico maio de 68.
Acreditemos em numerologia e aponte-se o dia de hoje, de regresso à Brasileira, como o dia em
que se lança o seu 10 º livro.
Guardaremos aí a estranheza e a feliz coincidência de hoje se celebrar o nascimento de Jim
Morrisson, uma intima inspiração do poeta aqui retratado, no desconforto das suas inquietações.
António Pedro Ribeiro não escreve apenas os livros, também os vive, chora, declama e, posso dizer
fotografa esse mundo.
Quem já não chorou com livros? Mas quem ainda não se espantou com a experiência de ter visto o
Ribeiro a declamar a sua poesia.
Quem seria Ribeiro se não fora a coragem de se ser também um dizeur, um artista performer?
Ribeiro é dos livros, mas também da voz e do grito, da música que se transforma em imagens. E só
por aí, Ribeiro já é do mundo, esse que acredita na humanidade.
Diante dos textos do Ribeiro uma insistente pergunta se impõe: como ler uma obra em que a
novidade se instaura no próprio código, na escrita em si? Escrita performática, inquietante que
clama por um novo leitor, que precisa se desprender dos moldes tradicionais de leitura e tornar-se
participante do ato de criação.
Nessa nova perspectiva de leitura, o texto não pode apenas ser visto, necessita de ser contemplado,
ouvido, tateado, percebido sinestesicamente, o que nos reporta à insistência com que o ler aparece
nos livros do Ribeiro.
O texto é directo e não se deixa interromper, não se fixa em nada, extrapola as convenções e,
diferentemente do que se verifica na obra, “não tem mancha de ruído”, ou seja, não “se fecha sobre
o significado” (Barthes, 1988: 73).
Nos livros, é sempre muito duvidoso o que se dá e o que se recebe, mas também não importa, o que
importa é que a estrada é uma caligrafia e o pensamento do Ribeiro é um planeta, uma rota, um
mapa, uma mão, uma voz, uma revolução!
Qualquer dia entenderemos o que é ter vindo ao mundo para inscrever coisas na parte ainda vaga do
universo em que o poeta almejou uma revolução.
O poeta pára nos cafés à espera de mais mundo.
A Terra do Ribeiro são os cafés que o protegem das intempéries e dos verões escaldantes. Ter uma
terra é isso: é ter um lugar de plantio e de colheita do que se não esquece, tudo mais, por mais belo
que possa ser, é uma passagem, é um desaparecimento.
Na terra do Ribeiro pode-se medir o mundo.
É nos cafés onde emerge o desejo e o espanto, lembrando as impossíveis brisas e todas as baladas.
Na poesia do Ribeiro o mundo a escorre-lhe dos olhos
Nesta terra é um poeta e pouco mais, com um caderno pronto e urgente numa mão
e na outra um coração.
Ângela, a Berlinde
Lançamento do “Café Paraíso” de António Pedro Ribeiro
Café, a Brasileira, 8 de Dezembro de 2011
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apresentação de “café paraíso”, no café “a brasileira”, em braga
As palavras são de António Pedro Ribeiro, na Brasileira de Braga, numa casa cheia, saboreando o “Café Paraíso” e partilhando poemas de café com amigos: “Faço declarações de amor a Braga e à Brasileira. Sou o poeta da Brasileira e do Piolho. (…) A cidade está viva e eu também.“. O jornalista Alexandre Praça contou histórias de tempos revolucionários e a fotógrafa Ângela Berlinde elogiou a poesia de António Pedro Ribeiro, o único poeta de café e um homem do mundo.
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