palavras de ângela berlinde durante a apresentação de “café paraíso”, n'”a brasileira”, em braga

Ao Ribeiro

Nunca serei fotógrafa o suficiente
para revelar a loucura e devaneio do poeta maldito
ou fazer o mais claro enquadramento das longas tardes
onde o poeta tudo roubou ao futuro do mundo.
Nunca serei gente suficiente
para o retratar.
Mas sei que há fotografias
que se não escrevem,
sendo só o tempo o seu dono
e a infinita passagem
a única e a mais justa forma
de os expressar.
Ribeiro fica nos cafés e na luz espelhada da Brasileira
na cor tão difícil que a liberdade mistura com os dias do mundo.
Há no seu coração um planeta a atravessar-lhe o coração,
como se o Poeta e o mundo pudessem ser uma narrativa
para partir de vez,
para o mais justo coração da humanidade.
Os livros de Pedro Ribeiro são o seu retrato mais grandioso,
como é o retrato de uma geração, de alguém nascido no mítico maio de 68.
Acreditemos em numerologia e aponte-se o dia de hoje, de regresso à Brasileira, como o dia em
que se lança o seu 10 º livro.
Guardaremos aí a estranheza e a feliz coincidência de hoje se celebrar o nascimento de Jim
Morrisson, uma intima inspiração do poeta aqui retratado, no desconforto das suas inquietações.
António Pedro Ribeiro não escreve apenas os livros, também os vive, chora, declama e, posso dizer
fotografa esse mundo.
Quem já não chorou com livros? Mas quem ainda não se espantou com a experiência de ter visto o
Ribeiro a declamar a sua poesia.
Quem seria Ribeiro se não fora a coragem de se ser também um dizeur, um artista performer?
Ribeiro é dos livros, mas também da voz e do grito, da música que se transforma em imagens. E só
por aí, Ribeiro já é do mundo, esse que acredita na humanidade.
Diante dos textos do Ribeiro uma insistente pergunta se impõe: como ler uma obra em que a
novidade se instaura no próprio código, na escrita em si? Escrita performática, inquietante que
clama por um novo leitor, que precisa se desprender dos moldes tradicionais de leitura e tornar-se
participante do ato de criação.
Nessa nova perspectiva de leitura, o texto não pode apenas ser visto, necessita de ser contemplado,
ouvido, tateado, percebido sinestesicamente, o que nos reporta à insistência com que o ler aparece
nos livros do Ribeiro.
O texto é directo e não se deixa interromper, não se fixa em nada, extrapola as convenções e,
diferentemente do que se verifica na obra, “não tem mancha de ruído”, ou seja, não “se fecha sobre
o significado” (Barthes, 1988: 73).
Nos livros, é sempre muito duvidoso o que se dá e o que se recebe, mas também não importa, o que
importa é que a estrada é uma caligrafia e o pensamento do Ribeiro é um planeta, uma rota, um
mapa, uma mão, uma voz, uma revolução!
Qualquer dia entenderemos o que é ter vindo ao mundo para inscrever coisas na parte ainda vaga do
universo em que o poeta almejou uma revolução.
O poeta pára nos cafés à espera de mais mundo.
A Terra do Ribeiro são os cafés que o protegem das intempéries e dos verões escaldantes. Ter uma
terra é isso: é ter um lugar de plantio e de colheita do que se não esquece, tudo mais, por mais belo
que possa ser, é uma passagem, é um desaparecimento.
Na terra do Ribeiro pode-se medir o mundo.
É nos cafés onde emerge o desejo e o espanto, lembrando as impossíveis brisas e todas as baladas.
Na poesia do Ribeiro o mundo a escorre-lhe dos olhos
Nesta terra é um poeta e pouco mais, com um caderno pronto e urgente numa mão
e na outra um coração.
Ângela, a Berlinde

Lançamento do “Café Paraíso” de António Pedro Ribeiro
Café, a Brasileira, 8 de Dezembro de 2011

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