comunicação de isabel rocha no lançamento de “nunca o mar” (bairro dos livros), de minês castanheira, em cerveira

Não tendo o dom do discurso solto e conforme o prometido, aqui vai o meu mail.

Minês,

O Nunca o Mar comove-me, cria-me uma agitação no coração. A tua poética atravessa-se, e “atrás do umbigo, atravessando o umbigo” para conhecer o outro, o desconhecido, convida-nos a celebrar a vida, como a Fiama que nos trouxeste:

“Nunca o mar foi tão ávido quanto a minha boca. Era eu quem o bebia. Quando o mar no horizonte desaparecia e a areia férvida não tinha fim sob as passadas, e o caos se harmonizava enfim com a ordem, eu havia convulsamente e tão serena bebido o mar.” (Fiama Hasse Pais Brandão, in “Três Rostos – Ecos”)

Penso na célebre afirmação de Arthur Rimbaud numa carta a um amigo “Car je est un autre”. Frase paradoxal, porque coloca em questão a fronteira entre identidade e alteridade, sendo a definição encontrada pelo próprio oposto e que nos exige uma concepção do sujeito na sua relação com os outros. Mas como construir a divisão entre o eu e os outros? Onde fica a fronteira? E quem decide? E como se pode ser outro em si mesmo?

Nesta necessidade de representação surgem-nos os conceitos identidade memória, identidade resistência/refúgio, identidade relação, identidade projecto, identidade tribal, identidade compósita, onde a fronteira aparece como um médium de comunicação e de partilha. O que pode escapar a esta representação é o ser mutante e mutável da realidade, o desfasamento sempre renovado entre o objecto e o sujeito que faz do conhecimento um processo indefinido, uma “identidade-em-viagem”. O problema da representação é que conduz à ilusão ontológica de unidade e permanência de sentido, o que não se adequa à nova noção de nós próprios: somos pelo que vamos sendo, seres em devir.

“No limite de ti que reclamo para mim, para nos vir dizendo. Algo acontece e eu termino tudo o que um dia houve para sempre nunca agora.” (Minês Castanheira, in “Nunca o Mar”)

Não deixa de ser uma experiência, um meio-caminho entre o ser e o não ser, mediação entre familiaridade e estranhamento, e os espaços intermédios de gestação de qualquer coisa que lança projectos e utopias, é a relação com o outro, na assimilação das diferenças e na gratuitidade do dom:

“Só não me espanta que sejas tu o caminho traçado. E que eu faça esse caminho de costas para o sentido da onda caminhada e de frente para ti, marinheiro.” (Minês Castanheira, in “Nunca o Mar”)

A ponte entre o eu e o outro constitui a metáfora para esse processo de gnose, de aprendizagem, de hospedagem do outro, e é a hospedagem que serve de ponto de partida para novas viagens, novos caminhos do saber e a construção de uma casa:

“Sei que gostas daquele verso. Das palavras, amor, mas eu vou antes fazendo, porque ao teu lado todas as palavras são tão somente possíveis.” (Minês Castanheira, in “Nunca o Mar”)

São essas experiências pacificadas do reconhecimento mútuo que levam a uma verdadeira ágape, uma satisfação, uma dádiva sem espera de retorno. Na ágape, o próximo não é aquele com quem estabelecemos relação de proximidade, mas sim aquele de quem nos aproximamos:

“E de olhos fechados, encostada ao teu peito, instrumento longo de vertigens, vejo toda a casa imensa dentro de mim”. (Minês Castanheira, in “Nunca o Mar”)

Inês, há os que dizem que a escrever estamos sempre a falar/ escrever de nós próprios e emana do teu trabalho uma pulsão auto-biográfica, mas que como iniciei, comove, agita o coração do outro, pratica a celebração pública, uma poética da liturgia do amor.

Isabel Rocha

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